terça-feira, 1 de julho de 2025

FRAGMENTOS INVISÍVEIS

 

COMO O TRANSTORNO BIPOLAR SE APRESENTA POR DENTRO

Por Psi. Antônio Evangelista – Psicólogo Clínico

Apaixonado por saúde mental, escrita consciente e acolhimento verdadeiro

 

Nem todo sofrimento é visível. Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, o sorriso pronto e a estabilidade aparente mas, por trás dessas máscaras sociais, podem existir batalhas psicológicas silenciosas.

O transtorno bipolar é uma dessas batalhas. Trata-se de um distúrbio do humor que provoca oscilações emocionais intensas da euforia à tristeza profunda e que pode comprometer significativamente a qualidade de vida de quem vive com ele. Na maioria das vezes os sinais não são evidente. Eles se camuflam no cotidiano, tornando ainda mais difícil o diagnóstico precoce e o acesso ao cuidado adequado.

 

Uma metáfora visual

Imagine uma maçã vermelha, brilhante, aparentemente perfeita. Quem olha de fora vê apenas a casca lisa, o brilho sedutor. Mas, com o tempo, pequenas fissuras começam a surgir. Por dentro, ela vai se fragmentando, como um mosaico que se desfaz lentamente. Ainda conserva sua forma, mas já não é mais inteira.

A metáfora aqui apresentada ilustra com clareza o que muitas pessoas que lidam com transtorno bipolar experimentam: uma desconexão entre o que se mostra ao mundo e o que se sente internamente. Raramente essa fragmentação acontece de forma abrupta; geralmente é um processo sutil, gradual — um degradê emocional quase invisível para quem está de fora.

 

Como o transtorno bipolar se manifesta

O transtorno bipolar pode apresentar diferentes tipos e intensidades, mas quase sempre alterna episódios de:

·       Euforia (mania ou hipomania): energia excessiva, autoestima inflada, impulsividade, ideias aceleradas e pouca necessidade de sono 

·       Depressão: apatia, tristeza intensa, lentidão cognitiva, desesperança e, em alguns casos, pensamentos suicidas

Esses episódios podem variar em frequência e intensidade. Algumas pessoas enfrentam ciclos curtos e recorrentes, enquanto outras vivenciam longos períodos de estabilidade entre as oscilações. O mais importante é reconhecer que nem toda mudança de humor é apenas "personalidade" ou "fases" - e sim sinais que merecem atenção.

“O transtorno bipolar é uma condição médica grave, mas tratável. Com o diagnóstico e tratamento adequados, muitas pessoas com transtorno bipolar podem levar vidas plenas e produtivas.”
American Psychiatric Association, DSM-5, 2014.

O perigo do silêncio

Muitas pessoas com bipolaridade mantêm rotinas aparentemente normais. Trabalham, convivem socialmente e até sorriem mesmo quando se sentem despedaçadas por dentro. Esse contraste entre aparência e vivência pode atrasar o diagnóstico e o tratamento, aumentando o risco de crises graves.

Além disso, o estigma associado aos transtornos mentais ainda impede que muitos busquem ajuda. Existe medo de julgamento, rótulo ou invalidação. Mas a verdade é clara: sofrimento psíquico não se resolve com força de vontade, mas com acolhimento, escuta assertiva sem julgamento e tratamento adequado.

 

O que fazer?

1.    Reconheça os sinais: alterações de humor, comportamento impulsivo, padrões de sono desregulados ou esgotamento persistente são sinais de alerta,

2.    Fale sobre o que sente: conversar com um profissional é o primeiro passo para entender o que está acontecendo,

3.    Busque tratamento: psicoterapia e, em muitos casos, medicação podem estabilizar o humor e melhorar significativamente a qualidade de vida,

Apoie com empatia: se você conhece alguém que pode estar passando por isso, ouça sem julgamento. Às vezes, isso é o que mais salva.

 

Conclusão

Se você sente que está se fragmentando aos poucos, mesmo que por fora tudo pareça bem — isso já é um sinal. A saúde mental é uma necessidade que precisa ser levado muito a sério inclusive com ações preventivas. E pedir ajuda não é fraqueza. É coragem, é cuidado, é recomeço.

 

Referências

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • KAPCZINSKI, F.; QUEVEDO, J. (Orgs.). Transtorno bipolar: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2009.
  • BOSAIPO, N. B.; BORGES, M. K.; JURUENA, M. F. Transtorno bipolar: reflexões sobre diagnóstico e tratamento. Revista Perspectiva, [S. l.], 2017.
  • DEMÉTRIO, F. N. Transtorno bipolar – teoria e clínica. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, 2009.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Atlas da saúde mental. Genebra: WHO, 2011.
  • SCIELO BRASIL. Transtorno bipolar – teoria e clínica. Revista Brasileira de Psiquiatria. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/a/ftG5Fzpr9rvcBJH94sSXjCS/. Acesso em: 1 jul. 2025.

 

Psi. Antônio Evangelista 

Psicólogo • CRP/SP 149802 

 

 

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