sexta-feira, 4 de setembro de 2026

PRIVACIDADE E SIGILO: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA NA PSICOLOGIA

 

PRIVACIDADE E SIGILO: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA NA PSICOLOGIA

Compreendendo as diferenças e suas implicações éticas e profissionais

Por: Antonio Evangelista – Psicólogo e Palestrante

Resumo

Os conceitos de privacidade e sigilo frequentemente são utilizados como equivalentes no senso comum. Contudo, sob a perspectiva ética, jurídica e psicológica, possuem significados distintos e implicações específicas. Este artigo discute as diferenças entre privacidade e sigilo, destacando sua relevância para a prática profissional da Psicologia e para a proteção da dignidade humana. Enquanto a privacidade refere-se ao direito da pessoa de controlar aspectos de sua vida pessoal, o sigilo constitui um dever ético e profissional de preservar informações confiadas em contexto de atendimento. Compreender essa distinção favorece relações terapêuticas mais seguras, conscientes e alinhadas às demandas contemporâneas de proteção de dados.

Palavras-chave: privacidade, sigilo profissional, ética, psicologia, confidencialidade.

Introdução

Na sociedade contemporânea, marcada pela intensa circulação de informações e pelo avanço das tecnologias digitais, as discussões sobre privacidade e sigilo tornaram-se cada vez mais relevantes. No campo da Psicologia, esses conceitos assumem importância especial, uma vez que o vínculo terapêutico depende da confiança estabelecida entre profissional e cliente.

Embora frequentemente confundidos, privacidade e sigilo representam dimensões diferentes da proteção da pessoa. A distinção entre ambos não é apenas conceitual, mas também ética, jurídica e prática. Compreender essas diferenças permite uma atuação profissional mais responsável e fortalece os direitos dos indivíduos.


O que é privacidade?

A privacidade pode ser entendida como o direito que cada pessoa possui de controlar o acesso a informações, experiências, pensamentos e aspectos de sua vida pessoal. Trata-se de uma esfera individual que permite ao sujeito decidir o que deseja compartilhar, com quem compartilhar e em quais circunstâncias.

A privacidade está diretamente associada à autonomia e à liberdade individual. Ela envolve a proteção da intimidade, das crenças, dos relacionamentos, da vida familiar, das preferências pessoais e das informações sensíveis de cada indivíduo.

Nesse sentido, a privacidade antecede qualquer relação profissional. Ela é um direito inerente à condição humana e existe independentemente da presença de terceiros.

O que é sigilo?

O sigilo, por sua vez, refere-se à obrigação de preservar informações obtidas em razão de uma função, profissão ou relação de confiança. 

No contexto psicológico, o sigilo profissional constitui um dos pilares éticos da prática clínica. Quando uma pessoa compartilha conteúdos íntimos durante um atendimento, o profissional assume o compromisso de proteger essas informações contra divulgação indevida.

Diferentemente da privacidade, que é um direito do indivíduo, o sigilo é um dever daquele que recebe informações confidenciais. Portanto, enquanto a privacidade pertence ao sujeito, o sigilo pertence à responsabilidade de quem tem acesso ao conteúdo privado.

A relação entre privacidade e sigilo

Embora distintos, os conceitos são complementares.

A privacidade diz respeito ao espaço pessoal do indivíduo. O sigilo surge quando alguém tem acesso legítimo a esse espaço e assume a responsabilidade de protegê-lo.

Pode-se afirmar que a quebra de sigilo compromete a privacidade da pessoa, mas nem toda violação de privacidade decorre da quebra de sigilo. Por exemplo, a exposição indevida de dados pessoais em redes sociais pode representar uma violação da privacidade sem necessariamente envolver uma obrigação profissional de sigilo.

Da mesma forma, profissionais da saúde, advogados, assistentes sociais e psicólogos possuem deveres específicos relacionados ao sigilo, justamente por terem acesso privilegiado a informações privadas.

A importância da distinção na Psicologia

Na Psicologia, a compreensão dessa diferença é fundamental para a construção de uma relação terapêutica baseada na confiança.

O cliente tem direito à privacidade de sua história, emoções, conflitos e experiências. Ao compartilhar esses conteúdos durante o processo terapêutico, espera que o profissional adote uma postura ética orientada pelo sigilo.

Quando o psicólogo respeita o sigilo, ele protege a dignidade do cliente, fortalece a aliança terapêutica e cria condições favoráveis para que o indivíduo possa expressar livremente suas vivências.

Além disso, a distinção entre privacidade e sigilo contribui para esclarecer limites éticos importantes, especialmente em situações que envolvem registros clínicos, compartilhamento de informações entre equipes multiprofissionais e demandas judiciais.

Desafios Atuais da Privacidade e do Sigilo

O avanço tecnológico trouxe novos desafios para a proteção da privacidade e do sigilo. Prontuários eletrônicos, atendimentos online, armazenamento em nuvem e comunicação digital ampliam as possibilidades de acesso às informações pessoais.

Nesse cenário, o compromisso ético dos profissionais torna-se ainda mais relevante. Não basta apenas guardar segredo; é necessário adotar medidas concretas de proteção de dados, observando as exigências legais e garantindo que as informações compartilhadas pelos clientes permaneçam seguras.

A crescente digitalização dos serviços de saúde e a ampliação das discussões sobre proteção de dados tornam indispensável a reflexão sobre os limites e responsabilidades envolvidos no tratamento de informações pessoais.

Ao mesmo tempo, os indivíduos também são chamados a refletir sobre os limites da exposição voluntária da própria vida em ambientes digitais, fenômeno que modifica a compreensão tradicional da privacidade.

Considerações Finais

Privacidade e sigilo são conceitos interligados, mas não equivalentes. A privacidade constitui um direito fundamental relacionado à autonomia da pessoa e ao controle sobre suas informações pessoais. O sigilo, por outro lado, representa um dever ético e profissional de proteger informações recebidas em contextos de confiança.

Na Psicologia, essa distinção é especialmente relevante, pois a efetividade do processo terapêutico está diretamente ligada à segurança emocional proporcionada pela proteção das informações compartilhadas. Reconhecer as diferenças entre privacidade e sigilo contribui para uma prática profissional mais ética, responsável e comprometida com a dignidade humana.

Em uma sociedade cada vez mais conectada, compreender essa distinção torna-se não apenas uma exigência profissional, mas também uma necessidade cidadã para a preservação dos direitos fundamentais e das relações de confiança.

A privacidade é um direito do sujeito; o sigilo é um dever do profissional. Confundir esses conceitos enfraquece tanto a proteção da intimidade quanto a compreensão das responsabilidades éticas presentes nas relações de cuidado.

A distinção entre privacidade e sigilo revela-se fundamental para a compreensão das responsabilidades éticas que sustentam as relações de cuidado. Em uma sociedade cada vez mais conectada, proteger informações pessoais não constitui apenas um dever profissional, mas um compromisso permanente com a dignidade humana. 

Referências

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília: CFP, 2005.

BRASIL. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018.

DONEDA, Danilo. Da Privacidade à Proteção de Dados Pessoais. 2. ed. São Paulo: Thomson Reuters Brasil, 2019.


BAUMAN, Zygmunt; LYON, David. Vigilância Líquida: diálogos com David Lyon. Rio de Janeiro:
Zahar, 2013.

RODOTÀ, Stefano. A Vida na Sociedade da Vigilância: a privacidade hoje. Rio de Janeiro: Renovar, 2008.

 

 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

PSICOLOGIA REVERSA: ENTRE RESISTÊNCIA E PERSUASÃO

 

A capacidade de conduzir e influenciar socialmente

Por: Antonio Evangelista

Texto Principal

A psicologia reversa é uma técnica de comunicação que se apoia na contradição: ao sugerir o oposto do que se deseja, provoca no indivíduo uma reação contrária à instrução, conduzindo-o ao resultado esperado. Seu uso é mais frequente em contextos de educação, relacionamentos ou negociações, especialmente quando há resistência a ordens diretas.

Essa estratégia se mostra eficaz diante de comportamentos opositores, pois explora a tendência humana de afirmar autonomia frente a tentativas de controle. No entanto, é importante destacar que não deve ser utilizada como ferramenta principal em situações delicadas, como traumas psicológicos graves, onde o cuidado, a escuta empática e a intervenção profissional são fundamentais.


A Teoria da Reactância, proposta por Brehm (1966), explica que quando uma pessoa percebe sua liberdade ameaçada, tende a agir de forma contrária à imposição. Esse mecanismo psicológico é a base da chamada psicologia reversa, que transforma a resistência em motivação. Nesse contexto, o comportamento opositor ganha relevância, pois indivíduos que reagem negativamente a instruções diretas podem ser mais suscetíveis a essa técnica, já que sua identidade se fortalece ao “escolher” o caminho contrário ao sugerido.

Apesar de sua utilidade em negociações ou dinâmicas educativas, é necessário considerar as limitações éticas da psicologia reversa. Se utilizada de forma indiscriminada, pode se tornar manipulativa, comprometendo o respeito à autonomia e ao bem-estar dos envolvidos. Por isso, sua aplicação deve sempre ser orientada por princípios éticos.

No que se refere às aplicações práticas, observa-se que em ambientes educacionais a psicologia reversa pode estimular a autonomia do estudante; em negociações, pode contribuir para a redução de resistências; e em relacionamentos, quando aplicada com cautela, pode suavizar conflitos e favorecer a comunicação entre as partes.

Conclusão:

A psicologia reversa nos lembra que nem sempre o caminho direto é o mais eficaz. Muitas vezes, o ser humano precisa sentir que escolhe por si mesmo, mesmo quando a escolha foi discretamente conduzida.

Talvez o maior ensinamento seja este: não se trata de enganar, mas de compreender que a liberdade percebida é tão importante quanto a liberdade real. Quando reconhecemos a força da autonomia, aprendemos que persuadir não é impor, mas criar espaço para que o outro descubra, por si, o valor de suas próprias decisões.

 

Bibliografia

BREHM, J. W. Uma teoria da reatância psicológica. New York: Academic Press, 1966.

CIALDINI, R. B. Influência: ciência e prática. Boston: Allyn & Bacon, 2001.

FESTINGER, L. Uma teoria da dissonância cognitiva. Stanford: Stanford University Press, 1957.

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. New York: Macmillan, 1953.

ZANELLA, A. V. Autonomia e heteronomia: dimensões da constituição do sujeito. Psicologia em Estudo, Maringá, 2004.

LIMA, M. E. O. Persuasão e resistência: estratégias de influência social. Revista Psicologia: Teoria e Prática, São Paulo, 2010.

 

quinta-feira, 24 de julho de 2025


MISOFONIA: QUANDO SONS COMUNS DESENCADEIAM REAÇÕES INTENSAS

Por: Psi. Antonio Evangelista

Estar em um ambiente tranquilo e subitamente se sentir dominado por irritação, angústia ou ansiedade diante de ruídos simples como o som da mastigação alheia, o clique repetido de uma caneta ou o teclar acelerado em um teclado pode parecer estranho para muitos, mas para quem convive com a misofonia, essa experiência é diária e profundamente desconfortável.

Essa condição neuropsicológica ainda pouco conhecida transforma sons corriqueiros em verdadeiros gatilhos emocionais, gerando reações que vão do desconforto à crise.

Leia o artigo gratuitamente em: https://www.linkedin.com/pulse/misofonia-quando-sons-comuns-desencadeiam-rea%25C3%25A7%25C3%25B5es-antonio-evangelista-9qwef 


quinta-feira, 10 de julho de 2025

RAÍZES INVISÍVEIS, TRAMAS SUBMERSAS

  

AS AÇÕES DO INCONSCIENTE

Uma metáfora nos leva explorar as ações do inconsciente de forma comparativas.

À superfície, a vida flui com aparente normalidade. Sorrisos contidos, rotinas meticulosas, respostas automáticas. Mas sob esse nível visível como abaixo da lâmina d’água há um emaranhado de forças silenciosas em movimento. É ali que reside o inconsciente: vasto, misterioso, pulsante como raízes submersas que sustentam o tronco de quem somos.


Essas raízes memórias não ditas, traumas que adormecem, desejos não confessados se expandem em direções que a consciência jamais percebe por completo. Elas decidem caminhos. Elas moldam afetos. Elas sabotam escolhas que julgamos racionais. O inconsciente age por curvas e desvios, e nunca por linhas retas.

Como raízes em busca de nutrientes, nossas pulsões se estendem por entre o passado e o presente. Uma palavra dita por alguém, uma lembrança súbita, um cheiro qualquer mínima fagulha pode despertar um galho oculto da psique e ativar reações inesperadas. Não há lógica aparente: há sobrevivência psíquica.

Aqueles que insistem em ver o ser humano como apenas racional esquecem que nosso centro de gravidade emocional está encoberto. A lógica pode decidir o caminho, mas é a emoção, armazenada como raiz silenciosa, que move os pés. Por isso erramos, por isso repetimos, por isso às vezes nos sabotamos sem saber o motivo.

O inconsciente não é um inimigo. Ele é terreno fértil, cheio de forças esquecidas, capazes de gerar cura ou caos. São nele que dormem experiências enterradas que ainda respiram dentro de nós. E quanto mais tentamos negar essas raízes, mais elas se curvam por dentro, tentando romper a superfície. Elas querem existir. Elas querem se entrelaçar.

Há também beleza nesse emaranhado. Afinal, não seriam justamente os nós internos que nos tornam humanos? Não são as complexidades emocionais, os paradoxos e conflitos, que nos dão profundidade? Raízes lisas e simétricas não existem fora da ficção. Na vida real, há rachaduras. Há bifurcações. Há galhos que se cruzam em silêncio.

Crescemos rumo à luz, mas levamos conosco todo o subterrâneoaquilo que não se vê, mas que nos sustenta. Nosso afeto, por exemplo, jamais nasce puro. Ele é tecido por ausências, por memórias de perdas, por histórias que moldaram nosso modo de amar. Amar é atravessar o inconsciente. É aceitar que há raízes que doem, e outras que curam.

A psique, como um vaso com bambus, se adapta aos limites impostos. Ela curva o desejo, redesenha o medo, redesenha a esperança. Às vezes, uma raiz rompe o recipiente. Outras vezes, ela cria caminhos internosinvisíveis por fora, mas absolutamente vivos por dentro.

E quando mergulhamos em nós mesmos, quando ousamos olhar com honestidade para esses espaços escuros e silenciosos, começamos a reconhecer que não há crescimento sem alicerce. Não há transformação sem contato com aquilo que está na base.

 

Por: Psi. Antonio Evangelista

segunda-feira, 7 de julho de 2025

SEM LEGENDA, COM EMOÇÃ

  O ESTADO EMOJISADO DA ALMA 😶
Psi. Antonio Evangelista

Essa reflexão sobre o “estado emojisado” da alma me parece um manifesto contemporâneo do sentir: como traduzir o imaterial, o indizível, em pequenos ícones que, de alguma forma, dizem tudo. E dizem mesmo.
Vivemos um tempo em que o vocabulário do afeto precisou migrar para telas, e lá ganhou nova forma pixelada, minimalista, mas poderosa. Os emojis não são só atalhos de expressão: são bandeiras afetivas, confissões visuais, gestos codificados de empatia. Em um mundo onde o tempo é curto e as mensagens, efêmeras, essas carinhas tornaram-se pontes simbólicas entre almas apressadas.

Você já sentiu algo tão intensamente que nenhuma palavra dava conta... mas um emoji resolvia? Pois é. É porque nem toda emoção vem com legenda. Às vezes, a alma fala por carinhas e a gente ouve com o coração.

Estar emojisado é quando a gente transborda por símbolo.
É aquele momento em que o
💬 vira abraço, o 😂 vira libertação, o 😶 vira desabafo mudo.
Não é falta de vocabulário é sintaxe afetiva.

É como se nossas emoções tivessem aprendido uma nova linguagem.
Mais rápida. Mais simbólica. Mais honesta até.

A gente não diz mais "tô um caco".
A gente manda 🫠.
E todo mundo entende.

🧠 Pensata Psicológica Sentir em Linguagem Digital

O afeto humano precisou aprender a caber no celular.
E, surpreendentemente, ele se adaptou.

Os emojis talvez sejam os primeiros sinais vitais digitais da psique moderna.
Eles surgem onde a fala trava, onde a escrita é fria, onde o olhar não alcança.
É comunicação não-verbal em ambiente virtual.

Do ponto de vista psicológico, isso é fascinante:
criou-se uma semiótica emocional instantânea, quase como um inconsciente coletivo em pixels.

Talvez não seja sobre “superficialidade da geração emoji”,
mas sobre a sofisticação simbólica da nossa necessidade de sentir — mesmo em meio a textos frios e curtos.

Ser emojisado, no fim, é ser profundamente humano… numa linguagem atual.

Citação Inspiradora

“Quando não houver palavras, que a emoção desenhe. E se ela desenhar um emoji, entenda: foi o coração que escreveu.”

terça-feira, 1 de julho de 2025

FRAGMENTOS INVISÍVEIS

 

COMO O TRANSTORNO BIPOLAR SE APRESENTA POR DENTRO

Por Psi. Antônio Evangelista – Psicólogo Clínico

Apaixonado por saúde mental, escrita consciente e acolhimento verdadeiro

 

Nem todo sofrimento é visível. Vivemos em uma sociedade que valoriza a produtividade, o sorriso pronto e a estabilidade aparente mas, por trás dessas máscaras sociais, podem existir batalhas psicológicas silenciosas.

O transtorno bipolar é uma dessas batalhas. Trata-se de um distúrbio do humor que provoca oscilações emocionais intensas da euforia à tristeza profunda e que pode comprometer significativamente a qualidade de vida de quem vive com ele. Na maioria das vezes os sinais não são evidente. Eles se camuflam no cotidiano, tornando ainda mais difícil o diagnóstico precoce e o acesso ao cuidado adequado.

 

Uma metáfora visual

Imagine uma maçã vermelha, brilhante, aparentemente perfeita. Quem olha de fora vê apenas a casca lisa, o brilho sedutor. Mas, com o tempo, pequenas fissuras começam a surgir. Por dentro, ela vai se fragmentando, como um mosaico que se desfaz lentamente. Ainda conserva sua forma, mas já não é mais inteira.

A metáfora aqui apresentada ilustra com clareza o que muitas pessoas que lidam com transtorno bipolar experimentam: uma desconexão entre o que se mostra ao mundo e o que se sente internamente. Raramente essa fragmentação acontece de forma abrupta; geralmente é um processo sutil, gradual — um degradê emocional quase invisível para quem está de fora.

 

Como o transtorno bipolar se manifesta

O transtorno bipolar pode apresentar diferentes tipos e intensidades, mas quase sempre alterna episódios de:

·       Euforia (mania ou hipomania): energia excessiva, autoestima inflada, impulsividade, ideias aceleradas e pouca necessidade de sono 

·       Depressão: apatia, tristeza intensa, lentidão cognitiva, desesperança e, em alguns casos, pensamentos suicidas

Esses episódios podem variar em frequência e intensidade. Algumas pessoas enfrentam ciclos curtos e recorrentes, enquanto outras vivenciam longos períodos de estabilidade entre as oscilações. O mais importante é reconhecer que nem toda mudança de humor é apenas "personalidade" ou "fases" - e sim sinais que merecem atenção.

“O transtorno bipolar é uma condição médica grave, mas tratável. Com o diagnóstico e tratamento adequados, muitas pessoas com transtorno bipolar podem levar vidas plenas e produtivas.”
American Psychiatric Association, DSM-5, 2014.

O perigo do silêncio

Muitas pessoas com bipolaridade mantêm rotinas aparentemente normais. Trabalham, convivem socialmente e até sorriem mesmo quando se sentem despedaçadas por dentro. Esse contraste entre aparência e vivência pode atrasar o diagnóstico e o tratamento, aumentando o risco de crises graves.

Além disso, o estigma associado aos transtornos mentais ainda impede que muitos busquem ajuda. Existe medo de julgamento, rótulo ou invalidação. Mas a verdade é clara: sofrimento psíquico não se resolve com força de vontade, mas com acolhimento, escuta assertiva sem julgamento e tratamento adequado.

 

O que fazer?

1.    Reconheça os sinais: alterações de humor, comportamento impulsivo, padrões de sono desregulados ou esgotamento persistente são sinais de alerta,

2.    Fale sobre o que sente: conversar com um profissional é o primeiro passo para entender o que está acontecendo,

3.    Busque tratamento: psicoterapia e, em muitos casos, medicação podem estabilizar o humor e melhorar significativamente a qualidade de vida,

Apoie com empatia: se você conhece alguém que pode estar passando por isso, ouça sem julgamento. Às vezes, isso é o que mais salva.

 

Conclusão

Se você sente que está se fragmentando aos poucos, mesmo que por fora tudo pareça bem — isso já é um sinal. A saúde mental é uma necessidade que precisa ser levado muito a sério inclusive com ações preventivas. E pedir ajuda não é fraqueza. É coragem, é cuidado, é recomeço.

 

Referências

  • AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais – DSM-5. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • KAPCZINSKI, F.; QUEVEDO, J. (Orgs.). Transtorno bipolar: teoria e clínica. Porto Alegre: Artmed, 2009.
  • BOSAIPO, N. B.; BORGES, M. K.; JURUENA, M. F. Transtorno bipolar: reflexões sobre diagnóstico e tratamento. Revista Perspectiva, [S. l.], 2017.
  • DEMÉTRIO, F. N. Transtorno bipolar – teoria e clínica. Revista Brasileira de Psiquiatria, São Paulo, 2009.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Atlas da saúde mental. Genebra: WHO, 2011.
  • SCIELO BRASIL. Transtorno bipolar – teoria e clínica. Revista Brasileira de Psiquiatria. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbp/a/ftG5Fzpr9rvcBJH94sSXjCS/. Acesso em: 1 jul. 2025.

 

Psi. Antônio Evangelista 

Psicólogo • CRP/SP 149802 

 

 

segunda-feira, 30 de junho de 2025

O PESO DAS PALAVRAS


 QUANDO O SIGNIFICADO ADOECE A MENTE

“Algumas palavras são tão leves que se perdem no espaço e no ar - outras são tão pesadas que podem suscitar traumas e castrações.”

Somos feitos de linguagem. Antes mesmo de sermos nomeados, já éramos moldados pelas palavras ao redor - promessas, repreensões, silêncios. Cada gesto verbal (ou a ausência dele) se inscreve na memória como uma tatuagem invisível, mas persistente.

À medida que crescemos, aprendemos a dar nome ao mundo. Mas esse vocabulário não descreve apenas o externo - ele constrói o interno. Há uma lacuna considerável entre o que é verbalizado e o que é compreendido. É nesse intervalo que o trauma é incutido.

Um “você não presta” dito na infância pode ecoar por décadas, disfarçado de autossabotagem. Um simples “isso é besteira” pode sufocar uma dor legítima. E o mais curioso: muitas vezes, o que nos fere não é a fala do outro… mas o que ouvimos através dos nossos próprios filtros emocionais.

Imagem de Tom por Pixabay

Porque, no fim, nem sempre o que você ouve, houve. Às vezes, o que houve foi a voz antiga das suas inseguranças falando mais alto que a realidade.

Num mundo hiperconectado, onde tudo se diz mas pouco se escuta com profundidade, reaprender a nomear o mundo é quase um ato de resistência emocional. As palavras que usamos não são apenas ferramentas de expressão - são moldes de realidade. Podem ser abrigo… ou prisão.

Reflexão Psicológica

Pela ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), os pensamentos automáticos funcionam como trilhos mentais: seguimos por eles sem perceber, guiados por significados sedimentados pela dor, pelo medo e pelo julgamento.

Quando esses trilhos são construídos com palavras marcadas por exclusão, vergonha ou culpa, nossa forma de perceber o mundo se estreita. Adoecemos - ora no silêncio do não-dito, ora na brutalidade do mal interpretado.

Reestruturar pensamentos não é negar a dor. É questionar a origem das palavras que usamos contra nós:
“Será que isso é mesmo verdade? Ou carrego heranças emocionais mal digeridas?”

A proposta da TCC é libertadora: sair da rigidez dos significados e abrir espaço para novos vocabulários internos. “Fracasso” pode se transformar em “aprendizado”. “Insucesso” pode ser apenas “experiência”. E até o sofrimento pode se tornar uma semente de reescrita.

Como bem nos lembra Aaron Beck, fundador da abordagem: “Não são os eventos em si que nos perturbam, mas o significado que damos a eles.”

Para Inspirar

“A linguagem é o armário das nossas emoções. E cada palavra mal dobrada pode amassar um sentimento inteiro.” -  Valter Hugo Mãe

E você?

Quais palavras te acompanharam silenciosamente até hoje? Existe alguma que você sente que ainda precisa renomear?

Compartilhe nos comentários - talvez a sua história ajude alguém a encontrar um novo vocabulário para si.

Se preferir, posso sugerir também hashtags, SEO e uma versão adaptada para redes sociais. Quer seguir nessa linha?


                                                                                                         Por Psi. Antonio Evangelista

PRIVACIDADE E SIGILO: UMA DISTINÇÃO NECESSÁRIA NA PSICOLOGIA

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